Eleições americanas 2020: o que muda nos Estados Unidos numa Presidência de Joe Biden

Durante a campanha, Biden já expressou alguns de seus planos para a política interna e externa dos EUA

Durante a campanha, Biden já expressou alguns de seus planos para a política interna e externa dos EUA
Reuters

Joe Biden derrotou Donald Trump na disputa pela Casa Branca e será o novo presidente dos Estados Unidos.

O resultado, projetado pela BBC no sábado (07/11), aponta para diversos cenários que podem mudar (ou permanecer iguais) na política interna e externa dos Estados Unidos a partir de 2021.

Durante debates e discursos de campanha, Biden se posicionou sobre vários desses temas e, inclusive, registrou algumas propostas de como pretende lidar com eles. Confira abaixo as visões do candidato democrata sobre sete pontos-chave para o mandato:

1. Meio ambiente

Segundo os especialistas, essa é uma das áreas em que Biden teria a maior divergência em relação ao seu antecessor. O candidato já afirmou que vai recolocar os Estados Unidos no Acordo de Paris, que estipula a redução de 28% na emissão de gases do efeito estufa até 2025.

O atual presidente Donald Trump retirou o país do acordo em junho de 2017, com o argumento de que gostaria de renegociar as metas e os objetivos de uma maneira que fosse “mais justa ao país, às empresas, aos trabalhadores e aos pagadores de impostos”.

Dawisson Belém Lopes, professor de política internacional da Universidade Federal de Minas Gerais, acredita que Biden seja mais afeito a cooperar com instituições internacionais na preservação do meio ambiente. “Esse tema é, por excelência, transnacional. Não existe uma política ambiental que seja desconectada do restante do mundo”.

Área desmatada perto de Apuí, Amazonas; em debate, Biden afirmou que 'começaria imediatamente a organizar o hemisfério e o mundo para prover US$ 20 bilhões para o Brasil não queimar mais a Amazônia'

Área desmatada perto de Apuí, Amazonas; em debate, Biden afirmou que ‘começaria imediatamente a organizar o hemisfério e o mundo para prover US$ 20 bilhões para o Brasil não queimar mais a Amazônia’
REUTERS/Ueslei Marcelino

Inclusive, durante um debate transmitido pela rede de televisão CNN no mês de setembro, o candidato democrata demonstrou preocupação sobre a maior floresta tropical do mundo. Em uma fala, ele disse que “começaria imediatamente a organizar o hemisfério e o mundo para prover US$ 20 bilhões para o Brasil não queimar mais a Amazônia”. A frase gerou reações contrárias e críticas do governo brasileiro.

O democrata, no entanto, não é 100% adepto do “New Green Deal”, um plano de recuperação econômica baseado na sustentabilidade feito por quadros mais à esquerda do partido democrata. Mesmo assim, ele se comprometeu a injetar mais de 1,7 trilhão de dólares durante 10 anos na pesquisa e no desenvolvimento de novas tecnologias que preservem o meio ambiente.

2. Imigração

Esse é um tópico em que os dois candidatos se aproximam bastante. “Durante o governo de Barack Obama, em que Biden era vice, havia uma política bem dura com os imigrantes internacionais, com número recorde de deportações”, observa Lopes. De acordo com o especialista, não deve acontecer uma grande flexibilização dessas leis a partir de 2021.

O candidato democrata, no entanto, teceu duras críticas aos casos relatados na imprensa ao longo dos últimos anos, em que mães e filhos imigrantes foram separados e mantidos retidos em condições nada ideais na região da fronteira com o México.

Em seu programa de governo, Biden também assegurou que irá oferecer cidadania para muitos imigrantes e permanecerá 100 dias sem fazer novas deportações para organizar a sua política em relação a essa temática.

A promessa que Trump fez desde 2016 de construir um muro nos Estados americanos que fazem divisa com o México é outro tópico que cairia por terra. “Nós precisamos de segurança nas fronteiras, mas não é esse tipo de segurança que estamos falando”, afirmou Biden num discurso em janeiro de 2019.

3. Covid-19 e saúde pública

Plano de Biden prevê amplo programa de testagem da covid-19 e a contratação de 100 mil profissionais para criar um programa de rastreamento de casos

Plano de Biden prevê amplo programa de testagem da covid-19 e a contratação de 100 mil profissionais para criar um programa de rastreamento de casos
Reuters

A condução da pandemia de coronavírus parece ter sido um dos principais fatores para a derrocada de Trump.

“As projeções até os meses de abril e maio indicavam uma reeleição do atual presidente. Mas ele cometeu equívocos grosseiros, que culminaram na morte de milhares de norte-americanos”, analisa Lopes.

Biden terá que agir rápido para lançar mão de novas medidas de contenção do coronavírus pelo país. Seu estafe prevê um amplo programa de testagem e a contratação de 100 mil profissionais para criar um programa de rastreamento de casos.

Essa equipe ficaria responsável por comunicar os cidadãos que podem ter entrado em contato com o vírus para orientá-los sobre medidas de prevenção, como a quarentena em casa por um determinado período. A estratégia se mostrou bem-sucedida em países como a Nova Zelândia.

Biden também prevê a criação de dez centros de testagem em cada um dos estados americanos. Ele também se comprometeu a fazer campanhas de conscientização sobre o uso de máscaras — a Constituição americana, no entanto, impede que o presidente obrigue a população a adotar essa ou outras medidas.

“A principal mudança numa futura administração Biden seria no campo retórico, de um presidente que sabe se comportar adequadamente e dá sinais à população sobre as medidas necessárias no momento”, antevê Carlos Gustavo Poggio, professor de relações internacionais da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), em São Paulo.

O democrata também sempre se mostrou muito mais aberto que o seu adversário a dialogar com agências e órgãos internacionais, como a própria Organização Mundial da Saúde (OMS)

Durante os últimos meses, Trump afirmou que cortaria a verba que os Estados Unidos destina à OMS por não estar de acordo com o jeito que seus diretores estavam conduzindo as ações contra a pandemia.

Biden também deve retomar e reforçar o Obamacare, o programa que amplia o acesso de parte da população aos serviços de saúde pública desenvolvido durante o governo Obama. Donald Trump sempre foi um crítico contumaz e estabeleceu várias medidas para frear essas políticas.

Vale dizer, no entanto, que as leis e os projetos propostos pelo democrata dependerão de como se configurarão as casas legislativas americanas. Se os republicanos mantiverem a maioria no Senado, fica mais difícil para Biden fazer a articulação e levar adiante muitas das ideias.

4. Economia

Essa questão está intimamente ligada ao fim da pandemia — afinal, enquanto a covid-19 estiver em alta, será difícil retomar amplamente as atividades dos setores de comércio e indústria.

De maneira geral, Biden propõe injetar dinheiro na economia, principalmente no desenvolvimento de novas tecnologias sustentáveis. O democrata também se comprometeu a preservar pequenos negócios e aumentar o salário mínimo e outros benefícios aos quais os trabalhadores têm direito.

Uma ideia que aproxima Biden e Trump é a valorização da indústria americana. O ex-vice-presidente é adepto da ideia de investir e incentivar a compra de produtos, serviços e tecnologias feitas em solo estadunidense.

“Há ainda uma preocupação em aumentar as taxas de emprego e isso se conecta indiretamente com essa agenda de proteger o cidadão local de fenômenos que são vistos como ameaças, como a imigração, a automação e a robotização”, acrescenta Lopes.

5. Racismo, desigualdade e populações vulneráveis

'Vidas negras importam'; protestos ocorreram em diversas cidades americanas e ultrapassaram as fronteiras dos EUA

‘Vidas negras importam’; protestos ocorreram em diversas cidades americanas e ultrapassaram as fronteiras dos EUA
Reuters

O assassinato de George Floyd no dia 25 de maio na cidade de Minneapolis foi um evento que deu vazão a uma série de acontecimentos que modificaram a sociedade americana.

O fato foi um combustível para a campanha Black Lives Matter, que ultrapassou as barreiras dos Estados Unidos e foi debatida em boa parte do mundo.

Em meio aos protestos, Trump adotou uma postura intransigente, criticando os manifestantes e exigindo a aplicação “da lei e da ordem”.

Biden adotou uma posição mais empática ao tema e aproveitou o contexto para sugerir reformas no sistema judicial e criar maneiras de incentivar as minorias por meio de programas econômicos e sociais — há uma ideia de montar um fundo de investimento para fomentar negócios de populações carentes ou vulneráveis.

Na seara jurídica, o democrata já afirmou diversas vezes que quer reduzir as taxas de encarceramento e minimizar “as desigualdades raciais, financeiras e de gênero nos julgamentos”.

6. Relações com Brasil

“O Brasil não é prioridade para os Estados Unidos. Nos últimos anos, houve um fracasso em estabelecer uma relação profunda entre os países”, avalia Poggio.

Segundo o especialista, por mais que nosso país tenha obtido um avanço em alguns pontos (como uma vaga na OCDE, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), esses ganhos não foram relevantes quando pensamos no relacionamento bilateral entre as duas nações.

“Se Biden ganhar, ele vai trazer pautas relacionadas aos direitos humanos e ao meio ambiente que podem gerar atritos com o Brasil”, afirmou o professor da FAAP, em entrevista concedida antes da projeção do resultado.

A questão é saber como o presidente Jair Bolsonaro vai responder a essas investidas. “Ele pode reagir e transformar o eventual presidente americano num inimigo, como fez com todos aqueles que não se alinhavam à sua própria ideologia. Ou pode reformular sua equipe diplomática e trocar o chanceler Ernesto Araújo. São questões que ficarão em aberto por enquanto”, conta Poggio.

7. Relações com a China

Biden e Trump parecem concordar que os Estados Unidos precisam conter o avanço do país asiático. “Isso se tornou um consenso entre democratas e republicanos e não há muita distinção entre o que os dois candidatos propõem para lidar com a China”, pensa Lopes.

Para Boggio, a principal diferença aqui está na estratégia que cada um deles adotaria para competir na disputa geopolítica e econômica internacional com o seu principal concorrente. “Trump adota uma postura solitária, de a América lidar sozinha com esse desafio, enquanto Biden deve buscar conter a China com acordos multilaterais e aliados na Europa e em outras partes do mundo”.

A disputa pelo 5G, a plataforma de transmissão de dados e comunicação digital que será adotada por cada país já é e poderá se tornar um dos campos mais intensos dessa batalha.

Ainda na administração Trump, houve uma série de movimentos para impedir que nações aliadas adotassem a tecnologia chinesa (o Brasil, inclusive, foi um dos principais alvos dessa briga, que deve se intensificar a partir do próximo ano).

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